A ética na avaliação de desempenho
Patrícia Bispo - 06/12/2004
A avaliação de desempenho é uma importante ferramenta na
gestão de pessoas. No entanto, é preciso que o processo seja
conduzido de maneira correta e ética.
Assim como acontece nas escolas, onde os professores avaliam
seus alunos no que se refere ao rendimento do aprendizado,
nas empresas também acontece um processo semelhante. Hoje,
diante da necessidade de sempre agregar valor ao negócio,
as organizações também se mostram preocupadas em avaliar o
desempenho dos seus colaboradores. Nesse momento, surge em
cena uma ferramenta conhecida como avaliação de desempenho
que corresponde a uma apreciação sistemática do desempenho
do profissional em função das atividades que a pessoa de realiza,
das metas e dos resultados a serem alcançados e do seu potencial
de desenvolvimento.
Variando de empresa para empresa, a avaliação de desempenho
também pode ser chamada de avaliação de mérito, avaliação
pessoal, relatórios de progresso, avaliação de eficiência
individual ou grupal etc. No entanto, o nome que essa ferramenta
recebe não é o mais importante, mas sim como a mesma é conduzida
e como os resultados por ela obtidos podem ser usados pela
organização. Quando bem aplicada, essa ferramenta pode ser
um ótimo meio para se identificar problemas de supervisão
e gerência, de integração entre as pessoas com a organização,
de adequação do profissional ao cargo, de localização de possíveis
carências de treinamento, entre outros.
Para possibilitar que um colaborador aperfeiçoe suas competências
por meio de um processo avaliativo, é fundamental que o avaliador
seja específico e mencione os fatos, ou seja, que descreva
tudo aquilo que o profissional não está acertando, comparando
sua ação com aquilo que a empresa esperava que ele o fizesse.
Uma avaliação do tipo "você não tem espírito de equipe", por
exemplo, não ajuda o profissional a melhorar, uma vez que
ele não ficará sabendo em que precisa mudar na sua maneira
de agir. "É necessário que o avaliador cite exemplos reais
de comportamentos errados do profissional em termos de espírito
de equipe e mencione qual era a conduta esperada em cada situação",
explica Flávio Farah, mestre em administração de empresas
e autor do livro "Ética na Gestão de Pessoas - Uma Visão Prática",
Edições Inteligentes. Por outro lado, o avaliador só poderá
citar esses exemplos, se tiver registrado os comportamentos
críticos do profissional.
Após realizar uma pesquisa com 46 empresas, para verificar
o conteúdo ético das normas de aplicação da avaliação de desempenho,
Farah obteve uma resposta, no mínimo, curiosa. Os dados coletados
por ele indicaram que, em maior ou menor proporção, as empresas
não possuem mecanismos capazes de assegurar a consistência
das avaliações; impõem discriminação com relação às categorias
que devem ser avaliadas; são mais rigorosas em cobrar o desempenho
do que em fornecer informações prévias sobre o desempenho
esperado; não examinam as queixas dos funcionários sobre o
sistema de avaliação; usam fatores que avaliam a personalidade
do colaborador e não possuem canais de apelação contra avaliações
injustas. Todos esses erros, segundo o autor da pesquisa,
são falhas éticas.
No entanto, é possível evitar que esses erros éticos comprometam
a qualidade do processo de avaliação de desempenho. Para isso,
a organização precisa tomar alguns cuidados como, por exemplo,
adotar políticas e procedimentos, assegurando que esses sejam
conhecidos e compreendidos por todos os colaboradores que
serão avaliados; instituir um mecanismo que permita aos funcionários
pedir revisão das políticas e dos procedimentos de avaliação
em vigor; adotar critérios avaliativos objetivos, baseados
na avaliação das ações do profissional e dos resultados alcançados
por ele, bem como definir que a avalição de desempenho seja
registrada por escrito e fundamentada em fatos - comportamentos
do funcionário e resultados obtidos por ele - também registrados.
Também é necessário tomar outros cuidados para que o processo
tenha resultados satisfatórios. Dentre esses, encontram-se
medidas como: definir que a avaliação de desempenho e os fatos
que a fundamentaram sejam comunicados ao colaborador; fixar
prazo rasoável para que o profissional examine a avaliação
e seus fundamentos; estabelecer um mecanismo de apelação,
ou seja, permitir que o colaborador recorra a uma instância
decisória independente da primeira, caso considere o resultado
injusto e por fim, estabelecer que todas as avaliações ou
uma amostra representativa delas, seja revisada por um mesmo
grupo ou comissão de pessoas, de preferência externo à organização,
para garantir sua consistência e assegurar que todos sejam
avaliados da mesma forma.
A ética mais ampla - Flávio Farah comenta que muitos livros,
artigos e discussões sobre ética empresarial tratam apenas
de dois tipos de conduta: as atividades da empresa que afetam
o público externo - consumidores, fornecedores, governo e
comunidade - e os atos de funcioários que atingem a própria
organização.
Outro fator que fere a gestão de pessoas é a formação deficiente
que se reflete no modo como a ética é tratada em algumas declarações
de valores corportaivos. Dessa forma, misturam-se valores
morais e não morias, a ética é colocada em posição subordinada
a interesses econômicos, algumas organizações chegam a colocar
os deveres morais exclusivamente nos ombros dos funcionários,
eximindo-se de responsabilidade, e se listam valores morais
que na verdade não o são como, por exemplo, confiança, cobertura
e transparência. "É preciso entender que não basta apenas
colocar, numa declaração de valores, palavras vagas e imprecisas
como respeito e justiça. Deve-se traduzi-las em regras práticas
de conduta, do contrário a tendência é permanecerem letra
morta" alerta Farah, ao acrescentar que o terceira e última
causa dos deslizes éticos é o autoritarismo da sociedade brasileira,
principalmente no ambiente de trabalho.
Quando questionado sobre qual o caminho que uma empresa
deve seguir para ser considerada ética em relação à gestão
de pessoas, Farah comenta que o primeiro requisito é a organização
contar com a presença de um gestor com forte liderança e que
seja dotado de uma firme disposição para fazer com que a ética
guie as ações e as decisões da companhia. Isso justifica-se
porque um líder com essas características tem a capacidade
de mudar os valores, as crenças, as atitudes e os comportamentos
dos seus seguidores, por meio da expressão de seus padrões
pessoais de conduta.
O segundo passo, para ser uma empresa ética, seria realizar
um diagnóstico da situação da organização em termos do grau
de respeito e justica com que os funcionários são tratados.
Para isso, é preciso examinar as políticas oficias de Recursos
Humanos, bem como observar as práticas não escritas e compará-las
com a situação ética considerada ideal. Antes de partir para
o diagnóstico, porém, é importante que a direção da empresa
discuta com um profissional especializado as bases conceituais
da ética na gestão de pessoas pois, caso contrário, os dirigentes
correrão o risco de não enxergar as falhas e as omissões morais
existentes nos processos de RH da organização, em virtude
da provável insuficiência de sua formação ética. "A terceira
etapa seria implantar as correções que a empresa decidir fazer
em função do diagnóstico", conclui.
|